Espiritismo e Psiquê




17 de ago de 2012

Viagem à Holanda




Queridos Amigos,

Estive na Holanda por dois meses, cheguei de viagem na última terça-feira. Antes de mais nada, peço desculpas pelo meu blog andar meio abandonado, mas o trabalho e esta viagem me mantiveram ocupada.
Pois bem, voltando ao assunto, minha viagem começou em julho, comecei a cumprir uma das minhas "metas na vida", e uma delas é bem estranha para os olhos daqueles cuja imaginação ainda não bateu à porta para fazer uma visita.

Sim, decidi que vou ler todos os livros que eu e o Leonardo (meu marido) temos em nossa estante, e não são poucos, já que ele é professor.... enfim. Confesso que uma das grandes aquisições no meu casamento foi ter "herdado" parte de sua estante, que juntou-se à minha, um pouco menor, confesso.
Como estou trabalhando em uma escola. e as crianças entraram em férias, nosso ritmo de trabalho diminuiu um pouco. Para se distrair, cada um arruma uma maneira, uns preferem ouvir música, entrar na internet, e eu aproveitei para colocar em prática minha meta.

Em casa, olhei para estante e pensei: por onde começar?? Pensei alto: pelos grandes clássicos que eu nunca li. Olhei, olhei e pensei novamente: não pode ser grande tem que caber na minha bolsa. Foi então que lá vi ela sorrindo para mim, a própria, Anne Frank! Dizem que para começar uma grande viagem basta dar o primeiro passo, e foi assim que começou a minha - de maneira um pouco diferente - ao virar a capa de um livro.

A Holanda que conheci, descrita por uma adolescente fascinante, estava em plena segunda guerra. Aquelas imagens de natureza, tulipas, parques, prédios charmosos, museus maravilhosos, foram todas destruídas uma a uma a cada som das bombas lançadas dos aviões. Era o que Anne ouvia ao ir dormir todas as noites. Nunca na minha vida eu li um livro tão intenso, minha sensação ao carregá-lo na minha bolsa era de proteger aquela história, aquelas duas famílias que estavam escondidas naquele sotão. Passei a dar mais valor aos diários - quanto são ricos!

A magia de um livro para mim é isso. Com exceção do pai de Anne Frank, ela e todos que estavam no anexo secreto morreram, mas se mantêm vivos todos "dentro um livro". Simples assim.

Fiquei extremamente reflexiva com este livro, pensava em tudo e imaginava tudo em cenas na minha frente. Meus Deus! Quanta angústia ao longo desses dois anos. Encarcerados para ter liberdade, um belo e melancólico paradoxo. E saber ao final que quando ela morreu de tifo em um campo de concentração, apenas um mês depois a guerra terminou. Um mês!! é incrível como o ser humano em condições extremas pode amadurecer, suportar o insuportável. Anne, com toda sua insegurança e questões não respondidas, conseguia ter clareza acerca daquele momento que vivia, tanto que escreveu o diário na intenção de que um dia ele talvez virasse alicerce para outro livro e também para juntar-se a inúmeras outras histórias parecidas com as suas, para contar o que aconteceu na guerra. Sem mencionar que ela mesma, em uma das suas inúmeras considerações, afirma que a guerra trouxe este “benefício”: o de levá-la a sair de um mundo totalmente protegido, o lar, os pais, e cair em outro totalmente diferente, ver a vulnerabilidade do mundo dos adultos, enxergar além de seu ego e ver que muitas pessoas morriam do lado de fora enquanto outras se arriscavam para ajudá-los a sobreviver no anexo. Quanto sentimento de gratidão e amor à vida nasceu naquele coração cheio de sonhos.

Quando terminei o diário, ficou um vazio, onde estava Anne? Onde poderia encontrá-la novamente? Silêncio... sabe aquela sensação de quando terminamos de ver um filme muito bom e não sabemos muito o que fazer quando ele termina, demoramos para voltar à realidade, igual aquelas pessoas no cinema que ficam sentadas olhando os créditos subirem, com um olhar distante. Encontrei Anne novamente, em mim, sim, acho que ficou um pedaço dela, talvez eu tenha ficado igual a uma tagarela contando sua história para quem quisesse – ou não – ouvir. Encontrei-a ao ver renovados meu projetos, porque  a beleza de ser adolescente é que nada é distante e impossível, e quando os anos passam, talvez pelas dificuldades, frustrações, nós começamos a colocar as nossas “pedras no caminho” a nos sabotar, vitimizar.

Como espírita (já que este blog trata disso) fiquei pensando, onde e como devem estar Anne Frank, qual sua nova roupagem. Aquela adolescente que se sentia extremamente sozinha conseguiu levar sua história para tantas, tantas pessoas. Seria essa sua tarefa? Graças a Deus, sua história chegou em minhas mãos quase 70 anos depois, e em quantas ainda chegarão.

Desculpem meu excesso de romantismo...

Bom, como uma criança, literalmente, disse a ela - ao livro - ao devolvê-lo na estante: Está na hora de você conhecer novos amigos! Coloquei-a carinhosamante entre os livros Revolução dos Bichos e Alice no País das Maravilhas, uma companhia feminina!

Depois de uns dias, lá estava eu, de novo, olhando, tentando decidir qual o próximo livro. Aí vi uma pequena gravura daquele homem de barba ruiva olhando para mim, comecei a desconfiar que são os livros que nos escolhem, não o contrário. Enfim, pensei: Viva a Holanda!

Peguei o livro e olhei para ele, Vicent Van Gogh, figura enigmática... Pessoalmente tinha eu uma história confusa com este personagem, pois o Leo sempre me dizia desde do início do nosso namoro: (lá se vão 10 anos) Nosso filho vai se chamar Théo. E eu não entendia direito. Ele dizia que eu tinha que ler um livro para entender a amizade e o amor entre esses irmãos. Mas meu interesse por Van Gogh veio da emoção.

Sim, emoção! Não entendia nada sobre arte; quando nova, me questionava quanto ao preço absurdo de quadros tão velhos, não sei, coisa de adolescente desinformado talvez. Comecei a ter interesse na época do cursinho e depois com meu namoro, pois eu pegava livros emprestados na minha faculdade para o Leo estudar. Enquanto passava quase duas horas dentro do ônibus a caminho de casa, comecei a ler os livros para passar o tempo. E que tempo bem aproveitado! Mas a emoção não veio daí e, sim, da primeira vez que vi um de seus quadros bem na minha frente, no MASP. Não sei descrever direito o que senti, acho que foi emoção, não sei, eu olhava aquilo e me veio uma vontade de chorar, aquela mistura de cores, cores, meu Deus!! Insisto em dizer que não é como nos livros, definitivamente. O quadro é lindo, é vivo, é intenso. É claro que na época eu não soube direito o que fazer com aquela emoção, para falar a verdade fiquei envergonhada, me senti meio chucra sabe, assim, não sei, meio “fora da casinha”; e pior que não tinha onde me esconder, pois tinha ido em um dia em que a exposição era gratuita e estava cheia de alunos de várias escolas. Eu não sabia para onde ir, com quem conversar, fui e voltei várias vezes diante do quadro. Que “mico”, não é mesmo?

Voltando ao livro, é sua biografia escrita por sua cunhada Johanna Van Gogh- Bonger; mais as cartas que Théo, irmão de Van Gogh, enviava e ele, assim como as cartas do pintor a Émile Bernard.

Aí começou a surpresa, fui ler a história de Van Gogh e descobri uma mulher com uma obstinação movida pelo amor. O amor que tinha ao marido – Théo – e a admiração pelas obras do cunhado, Vincent.

Viveu Jo um intenso amor, que só durou um ano e meio. O destino a fez perder o cunhado querido pelo suicídio. Pouco mais tarde, seu marido adoeceu, falecendo seis meses depois. Com um filho nos braços e mais duzentos quadros guardados em casa, sendo esses alvos de muitas pessoas, que pediam para ela jogar fora, por serem quadros “sem valor”, ela lutou para manter viva a mémoria do marido amado, dando continuidade a seu trabalho. Ela acreditava fielmente que o irmão de Théo era um grande artista, e tanto ela como o marido tinham razão. Jo conseguiu divulgar a obra do cunhado sozinha, sim, para mim, movida pelo amor. Isto é muito inspirador!

Lendo as cartas de Théo, ficava pensando na beleza da reencarnação, foi impossivel não pensar. Théo, apesar de ser mais novo, amava Vincent como se este fosse seu filho, extremamente compreensivo antes, durante e depois de suas crises. Viu seu irmão agonizar por três dias antes de morrer em seus braços... o que será que conversaram?? Para mim, Théo foi o anjo, que tendo visto seu tutelado ir embora, também partiu.

Me despedindo do amor de Théo, comecei a ler as cartas de Vincent ao jovem pintor Émile Bernard, naquelas páginas pude compreender por que Théo escrevia sobre a intensidade do irmão. Minha vontade era ter Van Gogh como professor, porque nunca vi ninguém descrever a função das cores como ele; e os conselhos então?! Fazia considerações tanto sobre religião quanto sobre comportamentos sexuais. Uma pessoa fascinante!!

Em meio a tudo isso, também refleti sobre o suicídio, tema este que andei estudando no começo do ano nos livros de Joanna de Ângelis - mas não quero ficar “séria” no momento final do meu post.

Enfim, amigos, conheci a Holanda que Anne Frank pouco conheceu, cheia de paisagens, natureza, flores e girassóis, muitos girassóis!!!! Que lindo!! Posso jurar que vi no meio de todas aquelas letras, cravados em longos parágrafos, girassóis!!!

Na terça, me despedi da Holanda definitivamente, mas claro, com promessas, desta vez bem materialistas por sinal. Convidei meu amor, já que falei tanto dele, para irmos realmente para lá. Na lista já tem dois museus para visitarmos, o de Anne Frank e de Van Gogh.

Quando? Não sei ... que importa ...








6 comentários:

  1. Me emocionei ao ler seu post...já tinha lido "O diário de Anne Frank"... mas pelos seus olhos ficou mais emotivo...
    Um bj gde e saudades!

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  2. Wanessa, que bom que gostou !!! O engraçado é que eu não estava pensando em escrever nada, quando sentei comecei a escrever sem parar :)

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  3. Lindo post Jú! Inspirador e fascinante. a literatura por si, já nos preenche com suas cores e nuances e romantizada pelos seus sentimentos ficou melhor ainda!!

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  4. Amei os teus comentários.. sim, sinto algo muito semelhante.. Van Gogh e Gauguin p mim é algo tão forte q sinto cada pincelada na minha alma... definitivamente amo os 2.... qdo fui no Museu do Van Gogh, chorei 5 min no hall ante de conseguir prosseguir, estática, soluçando... e o da Anne Frank, nunca fui em um museu tão silencioso, cheio e as pessoas só soluçavam, ninguém falava nada.. fui a noite por já saber q depois não iria querer falar nada...

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  5. Pessoal fui para o velho mundo em junho e julho deste ano!!!! Vou escrever tudo que senti e colocar aqui!! prometo!!
    Mas só para adiantar visitei o museu da Anne Frank e do Van Gogh, um sonho realizado em minha vida!!

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